domingo, 8 de novembro de 2009

Excerto do capítulo Religião vs. Ciência ou Anjos vs. Demônios

Os autores, Carlos Reis e Ubirajara Rodrigues cederam gentilmente um trecho da obra para que aqueles que ainda não tiveram oportunidade de comprar (veja como adquirir em outro tópico deste blog) apreciarem um pouco da abordagem.

Em que, afinal, o tratamento religioso dado ao fenômeno ufológico pode interferir negativamente nas investigações? Como já foi visto, o conhecimento humano tem várias áreas que se resumem no conhecimento filosófico, científico, vulgar e teológico. Este último não se pode confundir com um simples e generalizado comportamento místico. Seus meandros o tornam complexo, mesmo que alardeie tentar atingir o incognoscível, fundamentando o conhecimento tipicamente dogmático do qual necessitam as religiões. Mas é um campo desenvolvido há muito tempo e restrito à necessidade humana de se religar ao que a humanidade julga transcendental, de tal forma que a satisfaça nas suas mais profundas e inalcançáveis questões metafísicas.

O comportamento de tipicidade religiosa, abrangente, genérico e de cunho místico que tente abarcar um campo como a ufologia é bem diferente. Nem sistemático, no sentido estrito, é. É comportamento e não conhecimento, como o é o teológico. Eis sua inconveniência – a de buscar o trato completamente infundado, também inalcançável, de algo que, por ser da mesma forma desconhecido, é presa fácil das atitudes de deslumbramento dos que se aprazem pelo mistério. Então, não estamos falando aqui em qualquer religião, mencionamos tão somente o comportamento do tipo religioso, mesmo porque, na unanimidade dos casos, ele prevalece por influência do pensamento crente daquele que o adota.

Dawkins alerta para a incompatibilidade entre esse comportamento e a atitude científica. Defende com veemência que já passa da hora de os homens de pensamento racional e científico reagirem contra a histeria de se acreditar desrespeitosa a crítica contra o trato místico, em detrimento da metodologia científica. Nisto, este polêmico e cético escritor não está sozinho, nem tampouco é pioneiro. Em fins do século 19, Freud, corajosamente, já combatia a influência da atitude de religião que tentasse substituir um racionalismo prático. Seu futuro discípulo Erich Fromm, em Psicanálise e Religião[1], tratou de destacar como o psiquismo se torna distanciado de uma realidade mais sadia, com a mescla da tendência pelo sobrenatural e a ânsia de compreensão. De fato, isto é tão melindroso, que se pode dizer que a fase mitológica da humanidade, já deixada num passado distante, ainda não parou de espargir sua névoa. Mas a era da razão, cada vez mais presente, entra em conflito com tudo o que atualmente tenta permanecer firme como mito. Daí notar-se hoje um verdadeiro duelo natural entre razão e credulidade, e uma guerra declarada por preceitos místico-religiosos contra teorias científicas.

A atual escalada de proibições, de ensinamentos de cunho evolucionista nas escolas, em várias partes do mundo, notadamente nos Estados Unidos, é exemplo inquestionável, por incrível que possa parecer. A gravidade não está na proibição, que apenas em tese, e somente a princípio, pareceria querer evitar um suposto caráter definitivo da Teoria da Evolução para explicação da vida na Terra e da aventura do homem neste planeta. É mais preocupante – a proibição vem seguida da obrigação de se ensinar o pensamento criacionista, e alguns estados americanos já vivem tal situação. Os sociólogos, filósofos, antropologos e psicanalistas de moderna observação veem, em tais fatos, a evidência do mencionado duelo que o psiquismo da espécie humana trava consigo mesmo. Desaparece a fase mitológica, surge a idade da razão, mas o passado continua martelando, não se conformando com este panorama. Una-se a isto a reação contrária, também natural na maioria, de se procurar a compreensão através do método, que indiscutivelmente é penoso, porém compensador, e eis o conflito. Essa evidência reveste-se de um caráter medieval. Um último estertor dos modos da Inquisição?

A ufologia vive tudo isto, ou melhor, é um sinal claro deste momento. Alguns, por confundirem o bem-estar espiritual do homem, preferem tal termo como sinônimo de algo sobrenatural, ao invés de o aplicarem como significante de profundidade, sobriedade e sensibilidade. Fromm, na citada obra, diz que homens como Sócrates, Platão e Aristóteles preocupavam-se com a felicidade e o desenvolvimento espiritual do homem, exprimindo-a com a autoridade da razão, e não se arrogaram por transmitir revelações divinas. Era nitidamente a atitude de quem sabia que, um dia, os mencionados conflitos dariam lugar ao equilíbrio entre o comportamento racional e a tranquilidade espiritual, aqui em sentido que denota a evolução psíquica e psicológica do ser humano. Eles se interessavam pelo homem em si mesmo, que consideravam o objeto mais importante de estudo. Seus tratados de filosofia e ética eram ao mesmo tempo textos de psicologia (obra citada, p. 7).

Ufólogos, em sua maioria, preferem as ilusões ao tratamento racional, o qual têm como limitado e insosso ao gosto de suas transcendências, para que possam substituir seu afastamento das gnoses religiosas por seres salvadores e sobrenaturais, por isto mesmo batizados de ultraterrestres, extraterrestres, intraterrestres... uma ciranda de nomes que se amolda aos interesses. É que não se desvencilharam, sem o perceberem, do condicionamento que lhes foi imposto pelas influências de fundo religioso. Dessa forma, apenas substituem deuses por Ets. Em nossa era cética, com frequência se presume que as pessoas são religiosas porque desejam algo dos deuses que veneram, diz a escritora Karen Armstrong. Desejam vida longa, livre de doenças e até a imortalidade. Pensam que os deuses podem ser convencidos a lhes conceder favores. Mas o fato é que essa hierofania inicial mostra que a adoração não precisa ter necessariamente um fundo de interesse. Quando as pessoas aspiram atingir a transcendência simbolizada pelo céu, sentem que podem escapar da fragilidade da condição humana e passar para o que existe além dela. [2]

Há exemplos insofismáveis – o tal comandante de 15 milhões de naves Ashtar Sheran ocupa o lugar de Jesus, que irá voltar. Este comandante/salvador/anjo guardião vem para um arrebatamento e, por certo, adentrará pelas nuvens em uma cena digna de Dante e dos clássicos como as cúpulas de Rafael e Michelangelo. Será que venerar um “deus” irá abrandar a ira dos “deuses” e assim salvar a humanidade de seu holocausto? A ufologia está na infância pela infantilidade de muitos que nela militam, e corre o risco de extinguir-se precocemente antes de chegar, no mínimo, à adolescência. Fromm cita seu mestre: Freud não se limita a provar que a religião é uma ilusão. Ele diz que toda religião constitui um perigo, porque tende a santificar instituições viciosas, com as quais se tem aliado através dos tempos. Além disso, porque ensina às pessoas a acreditarem em uma ilusão, condena o pensamento crítico e condiciona certa estagnação intelectual.

Quando ufólogos não hesitam em tapar os ouvidos e ocultar dos olhos suas ilusões de infância – super-heróis dos quadrinhos, naves de outras galáxias, exércitos de Ets guardiões das leis interestelares nem os temores por vezes prazerosos como anjos da guarda à espreita, santos punidores pelas travessuras, deuses que impõem leis contra os ímpetos dos instintos – demonstram que ainda se encontram conduzidos por ideias primárias e elementares, por isto mesmo, desajuizadas. Daí, não se distinguem da versatilidade ingênua, cuja criatividade ainda não se separou da fantasia. Portanto, vão a São Thomé das Letras, à Chapada dos Guimarães, Macchu Picchu, Ilha de Páscoa e a tantos outros locais de “concentração místico-esotérica” e não se conformam quando nada presenciam. Mas veem. Veem e fotografam “sondas ufológicas” no lugar de faróis de automóveis, luzes de casas da roça nos altos dos morros, registram formas extraterrestres de seres cabeçudos e longilíneos em fotografias de churrascos ou encontros noturnos de turminhas que jogam RPGs, sentem-se vigiados por “orbs” ao invés de notar respingos de chuva, partículas de poeira e fungos nas lentes das câmeras, maravilham-se com “rods” pensando tratar-se de formas de vida minúsculas e desconhecidas ou de naves liliputianas. Fromm volta a referir Freud: Ele acentua o contraste entre a brilhante inteligência das crianças e o empobrecimento da razão adulta. Sugere que a natureza íntima do homem talvez não seja tão irracional quanto o indivíduo se torna sob a influência de ensinamentos irracionais.


[1] Editora Livro Ibero Americana, RJ, 1966.

[2] Op. cit .

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